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Transcript for O direito de crer?

Time Content
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Para a palestra de hoje, como sempre, tentarei aplicar os Ensinamentos Budistas para os problemas da vida cotidiana

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e falarei então, nesta tarde, sobre um tópico desafiador: "O Direito de Crer"

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motivado por vários eventos destas últimas semanas

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por exemplo, ao assistir um documentário que alguém me mostrou num DVD

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do canal 4 BBC, de Richard Dawkins, entitulado "A Raiz de Todo Mal"

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que tratava do problema das crenças fundamentalistas no nosso mundo

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o que foi bastante chocante por mostrar os tipos de ódio que podem ser inspirados pela crença

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e faz você começar a pensar sobre a suas crenças e o quão sólidas são e se tornar-se-ão perigosas

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e também porque crenças, de muitas maneiras diferentes, realmente afetam nossa sociedade

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e às vezes você se pergunta se, com a liberdade religiosa, você tem o direito de acreditar no que quiser

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e se isto for verdade, quais deveriam ser, e por que deveriam haver restrições?

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e então este é um tópico bastante poderoso

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e não tenho certeza se poderei abordá-lo, pois como usual, sempre o faço sem preocupar-me com o tempo, sem roteiro do que vou falar

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mas baseado em alguns dos entendimentos do Dhamma, os Ensinamentos Budistas

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da natureza da mente, de como a consciência funciona

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de como as crenças são formadas, e o perigo de seguir tais crenças

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então esta será uma conversa sobre O Direito de Crer

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e eu diria que a maioria de nós não aceitaria o fato de que alguns crêem não termos o direito de crer em coisa alguma

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e diria que a razão pela qual digo isto é que as vezes as pessoas sofrem por causa desta esquizofrenia

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em que podem acreditar em alguém que diz-lhes para matar todas as prostitutas

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ou que tiveram o comando do que acreditam ser um Deus para acabar com um governo

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seja o que for, tais crenças que as pessoas têm e sinceramente acreditam

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são óbviamente vistas por nossa comunidade como um grupo de crenças o qual não temos absolutamente o direito de se acreditar

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pois são um perigo para si mesmo e para os outros

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e quem as segue deveria estar buscando tomar ou ser receitado algum tipo de medicamento

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há visões extremas que penso qualquer um diria não se tem o direito de crer-se

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e este é um extremo, mas isto estabelece o fato de que não temos o direito de crermos em coisa alguma

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e todos os tipos de crenças que podem não ser tão perigosas, podem sim ser perigosas tanto quanto estas

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certamente estamos falando das crenças dos homens-bomba, daqueles que atiraram aviões contra as torres gêmeas

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é daqueles que oprimem as mulheres, ou aqueles que seguem um estilo de vida "gay"

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eles têm realmente o direito de crer nisto, que a homossexualidade seja um pecado?

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e acho que muitos de nós aqui diríamos que não esta é uma visão errônea, eles não tem o direito de crer em algo no tipo

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pois tais crença deixa de ser uma questão pessoal

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pois crenças são coisas que se carrega na cabeça

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e que são expressadas no sabbath, ou num sábado ou domingo, ou numa sexta-feira à noite

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quando se vai à um templo budista, mesquita, igreja ou algo do tipo

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a crença que alguém tem é o que forma ou gera suas ações, sua fala, sua atitute, o que se faz da vida

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tudo isto vem das crenças que se tem

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desta forma, será que, à parte de se identificar se as crenças que se tem são perigosas, deve-se mesmo permitir que estas existam?

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não seria isto uma forma de não assumir a responsabilidade diante da sociedade?

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há um grande problema aqui: o do direito da crença

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mas do que estou falando aqui?

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o problema é que as crenças estão geralmente nas coisas erradas

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temos algo como uma lista de prioridades para as crenças

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qual é a mais importante, a menos importante em nosso sistema de crenças

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e o que compreendo no Budismo é que, quando esta categorização, esta ordem de crenças

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quando não estão devidamente ordenadas, criam-se o problema de uma sociedade violenta e não funcional

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basicamente, acreditamos nas coisas erradas primeiramente, quando estas deveriam ser secundárias

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e há alguns anos, li um artigo, talvez dez ou quinze anos atrás

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quando fundamentalistas, possivelmente sikhs ou muçulmanos, no norte da Índia

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queimaram uma loja e mataram seu dono e sua esposa, pois ali vendia-se licor, álcool

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e na época pensei comigo que sim, eu não concordaria com vender álcool

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pois, sendo um monge, há algo como os cinco preceitos, não supõe-se que bebamos álcool

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e até mesmo há alguns dias, um anagarika aqui buscava se livrar de um molho de soja

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pois este tinha algo como 2.5% de graduação alcóolica

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e até mesmo tal quantidade é bastante perigosa para monges!

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imaginem os monges, com aquele molho de soja, ficariam animados!

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e isto aconteceu uma vez. Não me lembro quando foi a última vez que contei tal história,

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um monge, recebeu bombons licorados de presente de Natal de suas famílias no Canadá

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e vocês sabem, estes bombons são geralmente apenas doces, mas estas em questão tinham de fato licor dentro!

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o que pode não ser um problema, caso a última vez que se ingeriu ácool foi há um ano atrás ou mesmo agora há pouco

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mas se for como o caso desse monge, que há muitos anos não o faziam, sua sensibilidade realmente se aguça

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e apenas um bombom licorado, no caso deste monge, juntamente com outros três, resultou em quatro monges bastante animados!

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eu e minhas histórias engraçadas agora, um outra que não resisto em contar:

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muitos de vocês conhecem com muito carinho e respeito Aj. Nyanadhammo

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ele, que esteve conosco recentemente, passou tanto tempo em nossos mosteiros

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um monge maravilhoso e um bom amigo

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e quando, chegando de um vôo de Adelaide, sua cidade natal, aqui em Perth, onde viveu por sete ou nove anos, não me lembro

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ele, um ótimo monge, bem comportado, ótimo meditador e palestrante,

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quando me sai do avião, em Perth, ele cheirava como uma destilaria!

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sim, cheirava! E ele me contou o que aconteceu:

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no avião, em Adelaide, foi colocado num assento ao lado de onde estava este executivo

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que estava com temor de voar, mas aquela era a única forma de se chegar à Perth rápido o suficiente

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e a única forma daquele sujeito vencer o medo foi servir-se de álcool eferecido à bordo gratuitamente

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o executivo serviu-se de um copo de uísque assim que o avião decolou, bebendo mais e mais a partir de então

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e falava com Ajahn Nyanadhammo, sentado ao seu lado, tentando encontrar uma forma de vencer aquele medo

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e Ajahn Nyanadhammo ensinando-lhe um pouco de Budismo, mas o sujeito continuava a beber o uísque

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e assim que chegavam em Perth, duas ou três horas de viagem, ele já havia bebido tanto uísque que já não estava tão estável assim

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veio uma turbulência, enquanto ele segurava um copo cheio de uísque na mão, que foi derramado no manto de Ajahn Nyanadhammo

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momentos antes de pousarem, e por isso que, assim que ele desembarcou, cheirava a uísque!

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bom, pelo menos essa foi a versão dele!

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pois é bastante embaraçoso um monge que cheira a uísque! especialmente um monge como ele

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bom, voltando à conversa, as crenças

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embora as pessoas tenham essas crenças bastante arraigadas, e hajam os efeitos destas, é a prioridade dada a estas que é o problema

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e há uma história que, acho, lhes contei há alguns anos, que serve para se entender por que as crenças

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que entendam, podemos tê-las, devem ser priorizadas

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é uma história que conto em casamentos e que vai acabar arrombando a porta do seu coração

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e vou contá-la novamente, e muitos já devem até conhecer de cor, a história da galinha e o pato

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e é importante compreender esta história, pois em seguida vou expandi-la

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para como esta má priorização de crenças causa-nos tanto problemas

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e então como podemos garantir que as crenças mais importantes são levadas em consideração antes das demais